Tendo em vista que a Igreja de Cristo é um corpo composto por diversos membros com suas complexidades e particularidades, e que é dever de cada um destes membros cuidar e zelar pelo próximo, se faz necessário uma abordagem à Igreja sobre como lidar com pessoas em situação de adoecimento mental.
É cada vez mais comum, entre jovens, adultos, idosos e até mesmo crianças, casos de depressão, ansiedade, transtorno afetivo bipolar, TOC, entre outros distúrbios mentais.
Como eu, como servo de Cristo e do meu irmão, posso ajudá-lo de maneira eficaz?
No último post do nosso blog, chegamos à conclusão de que a graça comum atinge todas as áreas do conhecimento humano, inclusive a psicologia. Aprendemos que apesar de a Bíblia SER SUFICIENTE em seu propósito (revelar Deus ao mundo e o evangelho de Jesus Cristo), o Senhor também utiliza meios extra-bíblicos para cuidar do seu povo. Devemos olhar para os dois lados e buscar o equilíbrio necessário para lidar com as situações.
Por isso, se você acompanha algum irmão que passa por problemas mentais, seja discipulando, seja um amigo próximo, alguém da sua família, ou um liderado, nosso desejo é que através deste post possamos abrir um pouco a sua visão para formas de ajudar a quem precisa.
QUEBRE O PRECONCEITO QUE EXISTE EM SEU CORAÇÃO
Apesar de ser cada vez mais comum o diálogo entre cristãos sobre os transtornos mentais, também ainda é comum vermos pessoas que menosprezam a dor do outro. Até mesmo quem sente-se no dever de ajudar a um irmão que passa por uma situação de sofrimento, por vezes pode chegar a se questionar: será mesmo que isso tudo não passa de drama?
Esta que vos escreve já passou por momentos angustiantes de ansiedade e posso com todas as letras afirmá-los que: não! Não é drama! Somente quem sente na alma e na mente a dor de um transtorno mental sabe o que é. Por isso, minha irmã/meu irmão, nunca, jamais, em hipótese alguma, menospreze a dor do outro.
Zack Eswine, no livro A Depressão de Spurgeon traz o seguinte comentário:
“De acordo com Charles, é fato que “pessoas com uma mentalidade forte são muito aptas a serem duras com os companheiros nervosos” e falarem “de maneira áspera com pessoas que são muito deprimidas de espírito”, dizendo: “realmente, você deveria despertar desse estado”. O resultado é que uma pessoa forte diz a outra pobre e sofredora: “Coisa sem sentido! Tente se esforçar!”. Porém, quando faz isso, diz “uma das coisas mais cruéis que pode ser dita a um sofredor”, e tentando ajudar “apenas inflige mais dor”. O que nos faz ministrar um cuidado impaciente em relação à depressão? Julgamos os outros de acordo com nossas circunstâncias e não de acordo com as deles.”
Devemos estar prontos a ouvir e apoiar nossos irmãos angustiados.
NÃO COLOQUE MAIS PESO SOBRE OS OMBROS DE QUEM SOFRE
Uma pessoa que tem algum tipo de transtorno mental já sente carregar o mundo nas costas, impor mais peso sobre ela é acabar de derrubar quem já estava ao chão, e existem muitas formas de fazer isso.
Comentários ásperos, apontar erros do passado, afirmar que o motivo de sua doença é algum pecado ou que é falta de fé. Existem outras situações, mas vejo que estas são as principais.
Como alguém que já sofreu com ansiedade e com o medo constante de estar pecando contra o Senhor por estar nesta situação, posso afirmar que acusar pecados como a causa do problema só gera mais problema. De fato, existem casos em que a angústia vem pelo pecado, como foi o caso de Davi; mas nem sempre este é o caso. Como já sabemos, as patologias mentais podem ter diversas causas e grande parte delas não tem cunho espiritual.
Devemos estar atentos à situação do nosso irmão e nos perguntarmos: será, realmente que o caso dele envolve algum pecado? Como posso abordá-lo quanto a isso sem causar maior sofrimento? Nesse momento, contamos com a ajuda do Espírito que nos dá o discernimento. Por isso, é importante que, para ajudar outra pessoa, nós estejamos firmes em Cristo e em comunhão com Ele, para que estejamos sensíveis ao que o Espírito falar aos nossos corações.
No seu livro, Depressão e Graça, Wilson Porte Jr traz o seguinte:
“É importante que aqueles que auxiliam os que sofrem sejam encorajados a lidar com os depressivos, fugindo da ideia inicial de ser um demônio ou um pecado em sua vida. Com isso, não afasto a possibilidade de ser um pecado (ou um demônio); apenas defendo que não se deve partir, inicialmente, dessa premissa. Se fizermos isso, creio que iremos “prejudicar alguns do precioso povo de Deus em seus momentos de maior fraqueza.”
Devemos ter todo cuidado quando buscarmos aconselhar alguém que sofre. Frases de efeito, versículos isolados, uma rápida e única oração, não são suficientes.
Trago mais um trecho de Zack Eswine:
“Jesus nos ensina sobre aqueles que colocam seus fardos pesados sobre os outros, mas não levantam um dedo para ajudar (Mt 23.4). Ainda achamos que frases batidas e desgastadas ou a elevação de voz podem curar feridas profundas. Uma pessoa “pode ter uma grande aflição espiritual, e alguém que não entende sua dor como um todo pode lhe oferecer um consolo muito leve”. Como um médico que oferece uma pomada comum para uma ferida profunda, “dizemos coisas para uma pessoa intensamente angustiada que na verdade só agravam o seu mal.” Charles nos relembra as Escrituras a esse respeito: “como quem se despe num dia de frio e como vinagre sobre feridas, assim é o que entoa canções junto ao coração aflito.” (Pv 25.20). Tentamos controlar aquilo que deveria ser em vez de nos rendermos ao que realmente é. Não devemos “julgar severamente como se as coisas fossem como teoricamente as colocamos, mas devemos lidar com as coisas como elas são, e não se pode negar que alguns dos melhores crentes são, por vezes, lamentavelmente colocados nessa situação”, até mesmo “para saber se eles são crentes de verdade”. As Escrituras nos ensinam sobre os amigos de Jó que lutaram com esse exato ponto. Resistimos a ser humildes acerca de nossa falta de experiência.”
LEMBRE-SE QUE A PESSOA É MAIS DO QUE O SEU TRANSTORNO MENTAL
A pessoa continua sendo uma pessoa. Ela não é o transtorno mental que carrega. Por isso, devemos tratá-la como quem ela é: um ser humano, com particularidades, uma história de vida, gostos e sonhos. Tratá-la baseada no seu transtorno, pode fazer com que a pessoa sinta-se presa a ele, como se estivesse condicionada a viver para sempre na mesma situação, e isso por gerar uma estagnação (a pessoa acaba por se conformar com o seu estado e não busca uma mudança).
Você pode ajudar chamando-a à responsabilidade. Fazê-la lembrar que ela é maior que o seu transtorno e que existem formas de vencê-lo. Incentive-a a continuar tomando os medicamentos de forma correta (vale ressaltar! Pois existem muitos casos de pessoas que exageram na quantidade de remédios na falsa expecativa de “melhorar logo” ou que abandonam o uso dos medicamentos com a mesma e falsa expectativa; em ambos os casos a consequência é negativa e danosa; também vale lembrar que existem igrejas, até mesmo irmãos menos informados em nossas congregações que aconselham os fiéis/irmãos a cessarem a administração medicamentosa, isso é de uma irresponsabilidade imensa; devemos orientar aos irmãos quanto a isso também. Sugiro que leiam este artigo sobre as consequência da abstinência de anti-depressivos/ansiolíticos), incentive-o a fazer terapia, incentive-o a praticar atividades que ele gosta, chame-o para conversar sobre outras coisas, faça coisas que podem lembrá-lo de quem ele é e de que a vida real acontece fora da imagem deturpada que ele criou em sua mente.
MOSTRE QUE VOCÊ ESTÁ ALI PARA ELA
Apoie verdadeiramente, esteja perto e demonstre que se importa. Que não seja algo da boca para fora, mas que haja no seu coração o desejo de cuidar e zelar por esta pessoa.
No entanto, deve-se tomar bastante cuidado para não tornar-se um super-herói na vida desta pessoa. Não faça de tudo por ela, incentive-a a fazer as coisas sozinha, sem que você tenha que estar sempre presente. Incentive a autonômia dela.
Ore e peça a Deus sabedoria para cuidar de maneira a impulsinar o outro a sair da situação, evitando que haja uma visão de que você quem irá tirá-la de lá.
LEMBRE-A SEMPRE DE QUEM ELA É EM CRISTO E DA SUFICIÊNCIA QUE ENCONTRAMOS NELE
Já vimos que a pessoa com transtorno mental é alguém que está para além do seu transtorno. Fora a sua individualidade como ser humano, existe algo que também está além da doença que ela carrega: sua identidade em Cristo.
Procure trabalhar com esta pessoa quem ela se tornou por meio de Jesus. O nosso querido Salvador nos redimiu por completo: não há mais culpa em nós! Por meio de Cristo fomos feitos filhos de Deus; esta é a nossa identidade. Relembre a esta pessoa quem ela realmente é: um filho amado e remido.
Pessoas que sofrem com transtornos mentais, geralmente tendem a ter uma visão deturpada de si mesmas, por isso relembrá-la da sua identidade em Cristo é de fundamental importância, principalmente se ela for cristã.
Além disso, é importante estar sempre relembrando que em Cristo podemos encontrar plena satisfação. Uma pessoa que tem em Cristo sua fonte de alegria e satisfação, mesmo que passe por momentos de sofrimento, encontrará consolo. Por isso, tente lembrá-la das promessas do Senhor, do amor de Deus, da Graça redentora de Jesus e principalmente da FIRMEZA que temos em Cristo: Ele não abandona seus servos, Ele não larga a mão do abatido; se estamos sofrendo, Ele se compadece de nós pois Ele sofreu a mesma dor. Como diz Dane Ortland no livro Manso e Humilde:
“A nossa dor nunca prevalece sobre aquele que dela compartilha. Nunca estamos sozinhos. Aquela angústia que parece tão solitária, tão nossa, foi vivida por ele no passado e no presente ele a leva nos ombros.”
Cristo sabe o que é ter uma angustia profunda no coração e na mente, Ele está conosco no sofrimento, e mesmo que a nossa fé vacile, podemos ter certeza de que Ele nos sustentará.
Mas ATENÇÃO! Ao abordar isto, não imponha como a solução para os problemas dela. Explane a verdade do evangelho, mas incentive-a a buscar ajuda caso haja necessidade. Deus derramou graça na ciência para o cuidado de seus filhos.
ORE
Por último, é sempre importante lembrar: ore! Ore pela vida da pessoa que o Senhor te entregou para cuidar, ore para que Ele te dê sabedoria e discernimento, ore para que o Senhor dê perseverança para ambos durante a caminhada do cuidado.
Sabemos que o inimigo age sorrateiramente em casos assim, por isso, devemos estar vigilantes, firmes no Senhor, na palavra e na oração.
Lembre-se: você não é o super-herói desta pessoa; você não é capaz de salvá-la. Coloque nas mãos do sustentador do universo e confie de que Ele fará através de você.
Existem várias outras maneiras de ajudar; elencamos apenas algumas que consideramos essenciais; mas o Senhor usa diversos meios para cuidar de seus filhos. O primeiro passo para o cuidado é falar sobre isto. Então, falemos! Cuidar do irmão com enfermidade mental também é pregar o evangelho, além disso, é vivê-lo na prática.
Se vejo o meu irmão padecer de dores emocionais e não faço nada, que tipo de cristão eu sou? Por isso, minha irmã/meu irmão, hajamos de acordo com o que dizemos professar. E que não seja apenas durante o mês de setembro, mas todo dia, a todo momento.